
Eu bem que tentei dormir, mas a insônia continua me afetando. Às vezes parece até que as melhores idéias (e as piores também) me vêm à mente justamente quando procuro descanso. Pois, se não consigo dormir, dou um jeito de passar a noite: dessa vez escolho escrever o que venho pensando.
Bom, todo mundo deve ter esse medo e não deve ser nenhuma novidade, mas acontece que eu tenho medo de errar. Desde que me mudei para Joinville, incomoda-me falar besteiras, cometer erros idiotas e, só de lembrar os erros que cometi já me sinto culpada. É tolice, mas as crianças são tolas e vivem disputando entre si.
Disputas infantis podem parecer saudáveis, brincadeira de criança… Mas também pode ser traumático. Saí de uma cidade pequena para morar na maior cidade de Santa Catarina. Diferenciava-me dos meus colegas por que era gorda, não tinha tênis de marca e tinha o raciocínio lento.
No começo até achava engraçado as coisas que meus colegas diziam, mas pouco a pouco as ofensas iam me machucando. Sempre fui péssima atleta e isso é um prato cheio para deboches. No fim, eu ficava mais quieta, mais escondida, tomando cuidado para não abrir brecha para as travessuras travestidas de malícia.
Toda vez que eu encontrava uma forma de me enturmar, uma forma de ser mais engraçada e chamar atenção para as minhas virtudes, lá estava alguém para me colocar no chão e se tornar o engraçadinho da turma. Comecei a ter menos vontade de fazer tarefas e trabalhos. Passava a maior parte do tempo livre ouvindo música.
Tentei mudar de sala, de turno, mas quanto mais o tempo passava, mais dificuldade eu tinha de fazer amizades, de me abrir para as pessoas. Andava sozinha no recreio, dava voltas e voltas na pista de corrida esperando o sinal bater para continuar as lições. E quando voltava para casa estava tudo bem.
Quando me tornei adolescente já não dava mais bola para provocações, mas ficava sempre na minha. Evitava fazer perguntas aos professores pra não perguntar nada idiota. Ignorava o fato de que estava muito mal em matemática e até hoje evito essa matéria. De qualquer forma continuei passando de ano, mas não era uma garota feliz. Não tinha amigos para sair, me divertia muito pouco, não tinha paqueras… A cidade grande era fria demais.
Hoje estudo numa universidade e me sinto mais feliz. Ainda tenho medo de dizer tudo o que penso, porque às vezes ainda tenho a sensação de ser subestimada pelas pessoas, mas apesar disso as coisas mudaram. Eu amadureci, encontrei pessoas interessantes e lugares maravilhosos. O que me incomoda são as inquietas sombras, os antigos fantasmas que nunca me deixam esquecer a dor que senti da rejeição.
